Quem escreve

sábado, 29 de março de 2014

Sr. Professor Estampado

Eu não escolhi minha profissão, digo que tive de ser. Escolhi sim gostar de Filosofia, me tornar Doutor em Filosofia e por conta dessa minha paixão pelo estudo do saber, para sobreviver e continuar na Universidade, tornei-me professor. Sou professor há anos e até que gosto. Já passei pela vida de muitas mentes universitárias e acredito que muitos desses alunos não se lembram de mim. 

Veja bem, eu não sou um cara engraçado e tudo mais. Muitos dos meus alunos são obrigados a cursar minha disciplina por conta dessa política boba de incluir Filosofia na carga horária de todos os cursos. Claro que dou aula para aqueles que, assim como eu, escolheram a Filosofia, e claro que nesses cursos onde minha matéria não é uma intrusa obrigatória eu encontro alunos que não se importam com minha falta de graça, que se interessam mesmo pelo o que eu tenho a compartilhar. 

Além de não ser engraçado, eu também não sou muito bonito. Também não sou feio e não sei se essa é a pior coisa a se dizer, mas acredito no meu sorriso. Eu tinha uma turma dessas em que sou obrigado, digo que sou porque depois de tanto tempo a Filosofia já faz parte do meu ser. A turma era típica, tinha aqueles alunos que nada queriam comigo, alguns poucos que se interessavam pela aula e, nessa turma em especial, muitas tietes. Algumas bonitas, mas a mais interessada em mim  me deixava tenso. Não tenso porque uma relação entre professor e aluna sempre me pareceu absurda, mas tenso porque a menina não escondia o interesse por mim e a falta de sutileza dela me deixava constrangido e isso parecia encantá-la mais. 

Como toda Universidade pública, entramos em greve. Depois de mais de dois meses de recesso, voltei para os meus alunos. Primeiro voltei para alguns, quer dizer, encontrei alguns  pelo campus, sorri pra eles e só. Ela era uma das minhas alunas interessadas, mas não em mim. Interessada na Filosofia, digo. Encontrei-a na lanchonete, ela com seu café e eu com o meu. Ela sorriu pra mim e então eu resolvi acompanhá-la até a sala.  O caminho era longo se a conversa não fosse boa, mas a menina estava usando uma camisa com diretores de cinema, e aí foi fácil achar um assunto em comum quando falar sobre a greve deixou de ser interessante. Confesso que não esperava tanta coisa em comum e o caminho até a sala foi tranquilo, assim como a aula.

A  menina não era uma das tietes que me assustavam e depois de compartilharmos café, cinema e uma caminhada pelo campus, ela continuou a se interessar mais pela Filosofia do que por mim. Na semana seguinte, levei uma cópia de A Chinesa, filme do Godard que todos deveriam ver e ela me disse que nunca havia visto. Prometi a mim mesmo não entregar o DVD depois da aula, só entregaria se eu novamente a encontrasse por acaso antes da aula. Eu não queria encontrá-la, confesso, aquele DVD era a prova de que eu pensara nela durante a semana. E para minha sorte ou azar, ela estava no corredor tentando encontrar sinal para o celular. E que merda, ela estava usando uma camisa dos Beatles. Mais um gosto em comum! Entreguei o DVD e entramos para  aula. Mas que merda de novo, eu havia ficado nervoso, minha aula foi estranha e ela ficara desviando o olhar e escrevendo a aula inteira. 

Eu estava com aquela turma terça e quinta. Entreguei o DVD na terça e na quinta ela falou comigo após a aula. Disse ter gostado do filme e dividimos sorrisos tensos. Ela tinha um ar de calmaria, parecia estar sempre perdida e eu sentia que meu humor mudava quando eu estava perto dela. E acho que era recíproco. 

Na aula seguinte ela estava de vermelho. Vermelho! Meu sangue pulsava. Eu acho que o que ela vestia tinha um certo impacto em mim. Eu não me sentia seduzido pelas roupas dela; a situação era diferente. Eu gostava mais da compatibilidade, do olhar calmo e encantador que ela tinha. Gostava tanto que ficava surpreso. A gente passou a se falar sempre. Antes ou depois da aula, não importava, a gente sempre se falava. As tietes vinham falar comigo também e eu até que falava com elas mais naturalmente, pra não chamar atenção para a outra menina.

E então, na semana seguinte ela foi com uma caveira mexicana estampada na blusa. Morte e festa. E nesse clima, pedi o telefone dela. Coitado de mim, me perdi. Coitada dela, me passou o número.

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