Olho para o meu reflexo através de um espelho que há muito não recebe atenção, assim como tudo nessa casa. Meu rosto se mostra recém lavado, mas não me sinto limpa. Todo o meu corpo parece estar repleto de manchas sem sentidos, manchas que sem permissão colam no fundo da alma.
Por alguns momentos sinto o cheiro da vida e escuto os sons que vêem de fora do quadrado em que me tranquei. No entanto, essa atenção é logo guardada dentro de mim novamente. Não é seu cheiro que sinto e não é sua voz me chamando que ouço. Eu juro que tentei parar com tudo isso. Tentei praticar o que você me ensinou: falhei. Tentei esquecer e voltar à vida antes de você: falhei mais uma vez. E então eu paro e observo o céu que antes costumávamos parar para olhar e sonhar e amar. O céu continua o mesmo, aquele mesmo azul turquesa, aquela mesma luz que cega os olhos e clareia o coração. E é estranho perceber que o tempo passou, e é estranho lembrar de uma sensação e não senti-la, é estranho olhar para céu através de uma janela e não sentir a imensidão que ele transmite.
O passado continua sendo lembrado, impedindo que o presente se manifeste e tome conta de sua posição. O desespero faz a mente vagar e o coração, aquele resto de coração, desejar o impossível. Desconheço a energia que me prende a este mundo, o meu corpo já não corresponde às características humanas e uma parte do meu coração morreu contigo. Desejo todos os dias poder me libertar de tudo isso, te encontrar e olhar seus olhos verdes me olhando de novo. Tento e desejo, tento e desejo, tento e desejo mais uma vez.
O aperto que parece me espremer e tirar todo o meu fôlego surge em intervalos de tempo cada vez menores, me deixando somente com o antigo... com você. Eu não consigo me libertar e também não consigo esquecer. E mais uma vez eu te juro, amor: eu tentei. Mas a sensação de esquecer é muito forte para ser esquecida, eu simplesmente não consigo.
Jamille P.
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