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sábado, 24 de março de 2012

Cigarros Mecânicos

Era fato que naquele lugar eu era um fantasma. Eu até que gostava do meu anonimato, da minha normalidade. Eu estava num lugar onde todos se encaixavam dentro de um estilo e faziam as mesmas coisas, e apesar d'eu, sutilmente, ter a mesma visão que eles, eu não transparecia isso pelas minhas roupas ou pelo corte de cabelo, raramente eu vestia uma de minhas camisetas estampadas com meus filmes ou minhas bandas porque não queria ser vista pelo "grupo". Toda sexta feira, quando eu era a única do meu grupo de estudo a ter aula naquele horário, eu me sentava na mureta do espaço que os fumantes usavam e ficava ali sem ser abordada por ninguém. E sempre era assim antes das aulas; eu não me importava com a fumaça dos cigarros alheios e raramente eu dividia aquele espaço por muito tempo. Acho que, por as pessoas estarem sempre indo e vindo, aquele era um espaço de conversas rápidas, de algumas tragadas apressadas e ninguém o usava do mesmo modo que eu.

Eu já o tinha visto algumas outras vezes ali por perto, mas não prestara atenção em seu rosto e confesso que se não fosse pela camisa que estava usando, mesma que usava quando o vi, não o reconheceria. Ele era fumante e usava o espaço como os outros. Naquele dia, eu estava usando uma camisa branca com a mesma estampa de sua camisa laranja. E aquela era uma estampa muito comum naquele campus, eu ficava tentando imaginar de qual curso era aquela pessoa que somava mais um desconhecido com o gosto parecido com o meu. No momento, a situação não pareceu comum pra ele, que tão logo identificou a estampa de minha blusa, me deu um breve sorriso e logo desviou o olhar para pegar os cigarros no bolso da bermuda. Eu, como de costume, voltei a só estar ali, mas como se ele tivesse pensado muito antes de fazer, ele me estendeu um cigarro e:

- Você fuma?

E eu, que nunca fumara de verdade, não mais que algumas tragadas adolescentes, aceitei o cigarro. Hesitei antes de acendê-lo e tornar a aquela situação real. Quando dei a primeira tragada, me surpreendi com minha naturalidade, essa surpresa logo foi substituída pelo frenesi que aquele cigarro me causava. Minhas tragadas eram lentas e intensas, eu queria sentir o momento, queria criar uma ligação com quem me oferecera o cigarro, mas eu sabia que quando o cigarro acabasse ele iria embora e eu iria ficar. Aquele era um lugar de saídas e eu era a única que insistia em permanecer.

Acho que ele se sente obrigado a conversar comigo quando nos encontramos, por acaso, em outras partes do campus, e acho que me sinto obrigada a me tornar fumante quando o encontro na mureta. Ou talvez eu só ache, talvez a ligação tenha sido de fato feita.

Jamille P.

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